Ontem à tarde tivemos ainda uma última oportunidade para desfrutarmos da companhia do Tarchin, da Mary e do Andy. Primeiramente tivemos uma sessão de conversa com o Tarchin na gompa, que nos ofertou a leitura de um poema de sua autoria, transcrito aqui no final do post, e em seguida fomos para o salão do refeitório tomar um café com bolo, conversar e participar da compra e assinatura de três livros recentemente publicados pela editora AME de Botucatu, todos de autoria do Tarchin, o ‘Ciclo de Samata’, o ‘Refúgio Verdadeiro’ e o ‘Puja Diária’.

Aproveitamos a ocasião para presenteá-los carinhosamente com a aquarela de um ipê branco, pintado a partir de um ipê do Bairro Demétria pela Mônica Stein, e um lenço de seda para a Mary.

Sentiremos saudades.

Que possam vir mais vezes, se assim for bom para todos.

O poema:

 

 

Um Círculo de Bênçãos

 

Rogo aos pantanais,

Rogo aos desertos,

Me incluam em seu abraço.

 

Rogo às grandes florestas,

aos prados,

às tundras e florestas boreais,

Abençoem nossas famílias com saúde, curiosidade, e grande compaixão.

 

Rogo aos recifes de corais,

às franjas das marés,

aos estuários, deltas, às profundezas bentônicas e às grandes zonas oceânicas vazias,

mantenham-se firmes em meio à nossa loucura humana cada vez mais extensa.

 

Eu rogo às zonas quentes vulcânicas e às poças de lama fervente

Às calotas polares e ao pico das montanhas,

e às colinas,

aos regatos e rios, riachos e vias aquáticas entrelaçando-se,

 

por favor cuidem desta tribo adolescente.

Curem nossa turbulenta obsessão por nós mesmos,

nossa visão limitada, e acima de tudo,

nosso orgulho cego e estreito.

 

Rogo aos ventos e chuvas viventes,

ao sol, à lua, aos planetas e estrelas,

à todos os meus primos, próximos ou distantes,

por favor, nos abracem em vossa solicitute.

 

 

Meus olhos tornam-se húmidos,

uma nudez despida e vulnerável,

ao me lembrar dessa comunhão profunda e extensa.

Como chamar esse estado? . . .

alegria? tristeza? frustração? deslumbramento? confusão?  reverência? gratidão? amor?

Pertencemos uns com os outros.

 

Sentindo o seu sentimento

tendo a sensação das suas sensações

Somos intimidades entretecidas, do começo ao fim.

Estamos vivos.

Somos abençoados.

Somos expansivos e luminosos.

Miramos as estrelas e a vastidão vazia, e sentimos nossos ossos fluidos;

um grande gemido sinfônico de anseio e alegria,

uma dança de solidez, fluxo e saber,

histórias se revelando, histórias ocultando,

Eu me importo com todos vocês

Com cada uma e todas as partes,

e cada momento de cada parte,

todas inclusas,

nada ignorado.

 

Somos vida,

rezando com a vida,

à vida,

à favor da vida,

em toda sua abundância –

 

Somos um círculo de bênçãos.

Somos ‘aquilo que é’

Além das palavras.

 

Tarchin Hearn